Ricardina Correia
Psicologia Pediátrica
Rotinas

Começar o ano letivo: organizar-se não é feitio, é uma competência

«Ele não se importa com nada» é a frase que se ouve quando aparecem a mochila desarrumada, o caderno perdido e o teste que ninguém sabia. Mas organizar-se não é um traço de carácter: é um conjunto de competências que se desenvolve — e que se pode ensinar, com mais facilidade no início do ano do que a meio.

Ricardina Correia · 9 min de leitura
Desenho à mão de uma mochila de rodas com a palavra «mochila» e um coração, rodeada de lápis, réguas e cadernos espalhados no ar
O material está todo ali. O que falta é o sistema que o põe dentro da mochila. Ilustração de Luísa, 6 anos.

A situação

As aulas começaram esta semana, e quem já passou por outros anos sabe o que vem a seguir. A ficha que era para entregar aparece amarrotada no fundo da mochila. O trabalho de grupo é para amanhã e foi pedido há três semanas. O material de expressão plástica fica em casa outra vez.

E com isso volta a frase de sempre: não se importa, não liga, é desleixado. É dita com alguma razão — o esforço parece mesmo não existir.

Só que há um pormenor que costuma escapar: a mesma criança sabe de cor as estatísticas de um jogo, ou monta um cenário complexo sem se enganar. O desinteresse não explica isso.

A vantagem de estarmos em setembro é que ainda não há hábitos instalados a desfazer. Montar uma rotina de raiz custa menos do que corrigir uma que já falhou durante meses.

O que se sabe

Organizar-se não é um traço de personalidade

É um conjunto de competências que depende das funções executivas — planear, manter uma sequência na cabeça enquanto se executa, estimar tempo, monitorizar o próprio trabalho. E essas competências desenvolvem-se ao longo de toda a infância e adolescência, em ritmos diferentes de criança para criança.

Uma criança de dez anos pode ter o raciocínio de uma de doze e a organização de uma de oito. Isso não é contradição — é a norma. O desenvolvimento não avança em bloco.

Daí a consequência prática: ensinar explicitamente funciona melhor do que esperar que se aprenda sozinho. Nas competências de organização, como nas outras, o que se ensina aprende-se mais depressa do que o que se descobre por tentativa.

Diagrama em três partes: as quatro áreas da organização escolar que falham separadamente — registar o que há para fazer, gerir materiais, gerir o tempo e planear o que é longo; o que ajuda em cada uma; e o contraste entre a leitura moral e a leitura técnica do mesmo comportamento
Identificar em qual das quatro áreas falha é o que transforma «é desorganizado» em algo sobre que se pode agir.

São quatro áreas, e falham separadamente

Os programas de treino de competências organizacionais com melhor apoio empírico trabalham quatro domínios distintos. Vale a pena conhecê-los, porque uma criança pode estar bem em três e falhar redondamente no quarto — e a intervenção que ajuda numa área não ajuda noutra.

  • Registar o que há para fazer. Anotar o trabalho de casa, os testes, as datas. Quem não regista não tem por onde começar, por muito boa vontade que tenha.
  • Gerir os materiais. Ter o que é preciso, no sítio onde é preciso, no momento em que é preciso — mochila, capas, estojo, material específico.
  • Gerir o tempo. Estimar quanto demora uma tarefa, decidir por onde começar, saber quando parar.
  • Planear o que é longo. Dividir um trabalho de três semanas em passos, e distribuir esses passos pelos dias.

Antes de mudar o que quer que seja, vale a pena identificar em qual destas quatro está o problema. «É desorganizado» não indica o que fazer; «não regista o que há para fazer» indica.

O tempo é a área mais difícil

Estimar quanto demora uma tarefa é das competências que mais tarde amadurece — e a que menos se ensina. Uma criança que diz que faz o trabalho «num instante» não está a mentir: acredita mesmo.

É também por aqui que falham os prazos longos. Ligar o que se faz hoje ao que acontece daqui a três semanas exige uma representação do futuro que ainda não está construída. O prazo distante não é ignorado por desinteresse — é que praticamente não existe.

Tornar o tempo percetível — um temporizador à vista, um calendário onde se veem os dias a passar — faz mais do que qualquer aviso repetido.

O que a leitura moral custa

Esta é a parte que mais importa. Uma criança que ouve durante anos que é desleixada, desinteressada e preguiçosa acaba por incorporar isso na ideia que faz de si própria. E a partir daí deixa de tentar — porque tentar e falhar é pior do que não tentar.

É assim que uma dificuldade de organização, que é técnica e resolúvel, se transforma num problema de motivação e de autoestima, que é muito mais difícil de desfazer.

A troca de leitura — de «não se importa» para «ainda não sabe fazer isto» — não é indulgência. É o que permite ensinar em vez de repreender, e é a intervenção com melhor relação entre esforço e resultado.

Os sistemas externos não são muletas

Ouve-se com frequência que a criança «tem de aprender a fazer sem lembretes». A ideia é bem-intencionada e está trocada.

Listas visíveis, quadros, temporizadores e rotinas fixas reduzem a carga que recai sobre a memória de trabalho e libertam capacidade para o que interessa. Não impedem o desenvolvimento da competência — sustentam-no, tal como as rodinhas não impedem aprender a andar de bicicleta.

O que a evidência mostra é que os apoios externos se vão retirando à medida que a competência se instala, e não antes. Retirar cedo demais não acelera nada: produz falhanço.

Uma rotina fixa poupa mais do que parece

Decidir custa. Cada decisão sobre quando começar, onde fazer, por onde pegar consome capacidade que ficaria disponível para a tarefa. Uma rotina previsível — a mesma hora, o mesmo sítio, a mesma ordem — elimina essas decisões e deixa mais para o trabalho em si.

É por isso que a organização melhora mais com estrutura do que com insistência.

O que fazer

Identificar a área antes de agir. Registar, materiais, tempo, planeamento a longo prazo — em qual delas falha? Uma semana de observação chega para perceber, e evita meses de estratégias mal dirigidas.

Um sítio só, e sempre o mesmo. A mochila esvazia-se no mesmo lugar, os trabalhos fazem-se na mesma mesa, o material arruma-se no mesmo sítio. A previsibilidade do espaço faz metade do trabalho.

Tornar o tempo visível. Um temporizador à vista durante o trabalho, e um calendário de parede onde se marcam os prazos e se vê a distância até lá. Para prazos longos, marcar também os passos intermédios, não só a data final.

Dividir com a criança, não por ela. Sentar-se cinco minutos e decompor o trabalho de três semanas em partes, decidindo juntos o que se faz em cada dia. O objetivo não é resolver-lhe a tarefa — é ensinar-lhe o gesto de a dividir.

Verificar em vez de perguntar. «Trouxeste tudo?» tem sempre a mesma resposta. Uma lista curta afixada na porta, percorrida em voz alta, funciona melhor do que a pergunta.

Rever a mochila ao mesmo tempo todos os dias. Não quando já está um problema. Cinco minutos fixos, com a criança presente, e não em vez dela.

Reconhecer o processo, não só o resultado. «Vi que apontaste o teste na caderneta» reforça a competência que se quer instalar. «Tiraste boa nota» reforça outra coisa.

Combinar com a escola um sistema só. Se em casa se usa a caderneta e na escola outra coisa, a criança gere dois sistemas em vez de um. Um sistema partilhado tem muito mais hipóteses de pegar.

Quando procurar ajuda

Alguma desorganização é própria da idade e melhora com estrutura. Vale a pena avaliar quando:

  • As dificuldades mantêm-se apesar de sistemas consistentes aplicados durante várias semanas.
  • Há uma diferença acentuada entre o que a criança sabe e o que consegue demonstrar nos trabalhos e nos testes.
  • A desorganização aparece também fora da escola — nas atividades, nas rotinas de casa, no cuidado das próprias coisas.
  • Existem outras dificuldades associadas: atenção, impulsividade, leitura, escrita ou cálculo.
  • A criança evita começar tarefas, ou desiste rapidamente perante o que é longo.
  • Aparecem sinais de sofrimento — desânimo em relação a si própria, recusa de trabalhos, conflito diário à volta da escola.
  • O esforço da família está a ser absorvido pela gestão diária da escola, com desgaste evidente.

Dificuldades marcadas e persistentes nesta área são frequentemente parte de um quadro mais amplo — perturbação de hiperatividade e défice de atenção, ou uma dificuldade de aprendizagem específica. Uma avaliação distingue, e essa distinção muda o apoio que se dá.

E quando não é falta de vontade?

Se a inconsistência é grande — três horas concentrado no que lhe interessa, cinco minutos impossíveis no que não interessa —, vale a pena conhecer a leitura que explica esse padrão.

«Ele consegue quando quer»

Ferramenta de apoio

Agenda escolar e mochila

Uma das ferramentas entregues em acompanhamento trabalha precisamente as duas primeiras áreas descritas neste texto: registar o que há para fazer e gerir o material. É entregue em consulta, ajustada à criança.

Ver as ferramentas

Este texto tem fins informativos e não substitui avaliação nem acompanhamento profissional. Cada situação exige uma leitura própria.

Referências

  • Abikoff, H., Gallagher, R., Wells, K. C., Murray, D. W., Huang, L., Lu, F., & Petkova, E. (2013). Remediating organizational functioning in children with ADHD: Immediate and long-term effects from a randomized controlled trial. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 81(1), 113–128. https://doi.org/10.1037/a0029648
  • Dawson, P., & Guare, R. (2018). Executive skills in children and adolescents: A practical guide to assessment and intervention (3.ª ed.). Guilford Press.

Os quatro domínios da organização escolar — registo de tarefas, gestão de materiais, gestão do tempo e planeamento de trabalhos longos — seguem a estrutura dos programas de treino de competências organizacionais avaliados em ensaios controlados. O desenvolvimento das funções executivas ao longo da infância e da adolescência assenta num corpo de literatura, aqui referido de forma genérica.